segunda-feira, 1 de abril de 2013

A elegância do ourico


A elegância do ouriço, de Muriel Barbery, é um romance filosófico. Com humor, a narradora aborda questões do tempo, beleza, justiça, ética e amor. É preciso ler com paciência, pois há muito para refletir. Vale a pena!

É a história de Renée, de 54 anos, concierge (zeladora) de um prédio durante 27 anos. Ela é viúva, baixinha, feia e gordinha, conforme se descreve. O que faz a diferença é que ela, apesar da profissão simples e sem prestígio, é uma mulher culta, gosta de arte, literatura e filosofia. Enquanto a maioria dos moradores nem percebe a presença da zeladora, outros tornam-se seus amigos no decorrer do romance: uma adolescente pensativa, um senhor japonês, misterioso e sorridente, e uma faxineira portuguesa.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

AS MADONAS DE LENINGRADO



As Madonas de Leningrado, de Debra Dean, conta a história de Marina, uma mulher vítima com Alzeimer e que sobreviveu ao cerco de Leningrado, durante a segunda Guerra Mundial.  No estágio de sua doença, ela se recorda da época em que era guia do Museu Hermitage e como procurou memorizar as obras de arte que haviam sido retiradas das paredes e enviadas a outros países para que não fossem destruídas pelos bombardeios dos alemães. Marina se recorda também da fome e da luta diária pela sobrevivência.

O cerco a Leningrado, outrora São Petersburgo, iniciou-se de 1941. A cidade, além de ser constantemente bombardeada, foi isolada. Com isso, a maioria das pessoas morreu de frio ou fome. Durante quase três anos contabilizou-se cerca de um milhão de mortos, entre os quais, quase oitocentos mil pela fome. Segundo Pierre Vallaud, autor de O cerco de Leningrado, gatos, cachorros, pássaros e outros animais desapareceram das ruas. A população se alimentava de cola de tapeçaria, gesso e capim. Uma das raras sobreviventes do genocídio, Olga Berghotz, diz que a passagem do tempo era medida pelo intervalo que separava um suicídio do outro.

Ficção, assim como o filme Leningrado, de Aleksandr Buravsky, o romance de Debra Dean faz uma homenagem à população de Leningrado, resgatando a sua cultura e divulgando parte de sua triste história, mantida em segredo durante muitos anos. 

sábado, 21 de julho de 2012

On the road



O livro Pé na estrada, de Jack Kerouac expõe os sonhos de muitos jovens, nos Estados Unidos, durante os anos 40/50. Sem expectativas quanto ao futuro, o narrador, Sal, estudante universitário, se junta a outros jovens, de diferentes classes sociais, e embarca em viagens pelo país, em busca de algo que, acredito, deveriam buscar (e de certa forma encontram) dentro de si mesmos. Vários músicos e artistas, como Bob Dylan e Hector Babenco, após ler a obra, empreenderam viagens similares às dos personagens. Segundo o tradutor, Eduardo Bueno, a explosão hippie dos anos 1960 pode ser interpretada como uma conseqüência indireta de On the Road.

O personagem de maior destaque na trama é Dean, um jovem vindo de uma família desestruturada, a mãe morta e o pai alcoólatra e preso. Ele não tinha limites e via nas estradas a liberdade não encontrada na vida monótona de um trabalhador braçal. Os personagens se acham, muitas vezes, grandes filósofos. ”Essa é a história da América. Todo mundo faz o que pensa que deve fazer”, ou “... todo mundo na América é ladrão de nascença”, ou “o que Deus deveria estar pensando quando fez a vida ser tão triste assim”, pensavam. Em outras cenas, querem apenas curtir o álcool, as drogas e os relacionamentos com muitas garotas, apaixonando-se continuamente.

Os estilos musicais que os encantavam eram o jazz e o blues, interpretados por negros e por pessoas consideradas à margem da sociedade, além das músicas e danças mexicanas. Para mim, a melhor parte do livro foi a viagem ao México. A pobreza, o isolamento e a cultura de um povo muito diferente dos americanos. Acho que esta experiência foi bastante importante para os loucos viajantes.

De acordo com Eduardo Bueno, a arte do livro está em seu estilo oral. Assim, ela deveria ser lida em voz alta para realçar a sonoridade das palavras empregadas por Kerouac. Na tradução, Bueno mantém intacta a aura de transgressão, lirismo e loucura. Nos Estados Unidos pós-Segunda Guerra, começa-se a criar uma inversão de costumes e valores, também conhecido como o espírito beatnick, que pode ser um sentimento, um cheiro, o som da liberdade, o sentimento de “sacar a vida”, algo novo e bom.

Contexto histórico
Após a segunda guerra mundial, os EUA e a URSS iniciam uma verdadeira disputa onde dividem o mundo em dois pólos distintos. Ambos os lados acusavam-se mutuamente de tentar dominar o mundo através de políticas autoritárias e antidemocráticas. Nos EUA duas situações que contribuíram para sua adesão à Guerra Fria foram a morte do presidente Franklin Roosevelt (1945), que defendia um mundo controlado pelos EUA com o apoio da URSS após o fim da guerra; e a eleição de um Congresso Republicano (1946) conservador. Com a morte de Roosevelt, Harry Truman assume o poder e muda o discurso da “coexistência pacífica” entre URSS e EUA, sabendo que se encontrava em vantagem por dispor de um arsenal de armas nucleares, além de ser o único país que saiu fisicamente ileso do conflito.
Desta forma, foi lançada em 1947 a Doutrina Truman que designa um conjunto de medidas políticas e econômicas assumidas por Harry Truman, com um violento discurso contra a “ameaça comunista”, em que os EUA assumem o compromisso de defender o mundo dos soviéticos. Os EUA passariam a intervir em qualquer guerra a fim de obedecer a Doutrina e “auxiliar os países a derrotar os insurgentes comunistas”. Assim, de 1950 a 1961 os EUA interviram na Guerra da Coréia, na Guerra do Vietnã, no Irã, Guatemala, apoiaram a invasão de Cuba e criaram a “Escola das Américas”, no Panamá, onde os militares eram incentivados a assumir o poder em seus países. (infoescola.com/historia/doutrina-truman)




terça-feira, 26 de junho de 2012

Um copo de cólera, Raduan Nassar


É a história de amor entre uma jornalista e um botânico durante a ditadura militar. O homem mora em um sítio, pois quer ficar longe dos acontecimentos. A jornalista, na cidade, pois é uma mulher engajada no movimento contra o regime autoritário.

Por causa de um formigueiro que destrói parte de uma cerca viva, o homem fica furioso, o que causa indignação na mulher. A partir daí discutem. São expostas suas contradições ideológicas e subjetivas. Eles seriam a razão e a emoção, em que um não vive sem o outro. “...a razão jamais é fria e sem paixão”, pensa ele. No meio da discussão questões são levantadas, todas de forma bruta e amarga. Ele sabia e elogia a inteligência dela: ”...não que me metessem medo as unhas que ela punha nas palavras”.

Ele faz uma alusão ao regime autoritário e, de certa forma, à natureza do ser humano quando diz que o povo nunca chegaria ao poder, “porque o povo fala e pensa, em geral, segundo a anuência de quem o domina”... “a força escrota da autoridade fundamenta toda ‘ordem’, palavra que incorpora, a um só tempo, a insuportável voz de comando e o presumível lugar das coisas”. Quando o veneno escorre de sua boca, ele incorpora o canalha que existe nele e a seduz, buscando os pontos fracos dela: os beijos e os pés dele. Assim, à medida em que ela se envolve, ela se torna sua presa, é ele quem manda e ela obedece.

 A solidão povoada de Raduan Nassar, por Pedro Maciel
 Raduan Nassar, autor de "Lavoura Arcaica", "Um copo de cólera" e "Menina a caminho" afastou-se definitivamente da literatura. "Desisti de escrever porque há um excesso de verdade no mundo” (Otto Rank). Segundo Nassar, o que o levou a escrever e depois parar foi a paixão pela literatura, que ele não sabe como começa essa paixão e porque acaba.
Nassar, filho de imigrantes libaneses, nascido em 1935, estudou direito, filosofia e exerceu o jornalismo como diretor do Jornal do Bairro (SP) nos anos 70. Desencantou-se com a imprensa de uma maneira geral. Hoje ele planta feijão e milho de pipoca numa fazenda do interior paulista. Raduan, um dos escritores mais notáveis surgidos no país depois de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, também se recusa a dar entrevistas, afinal, diz o escritor, "sou apenas um escritor passageiro".
Ao encontrá-lo recentemente, me lembrei do romance "Lavoura arcaica", que resgata a tradição cristã e a proibição do incesto, o patriarcado e a obrigação do trabalho. Os temas característicos do romance são os da tradição mediterrânea, como a terra, a plantação, a colheita, a mesa e a família. É uma parábola do filho pródigo, sem final feliz. Narrativa trágica, bíblica e helênica.
Raduan é um ser trágico, desiludido, desesperançado, atormentado como o narrador-personagem da novela "Um copo de cólera" que vive um amor irreconciliável, perturbador e erótico. Uma paixão devastadora. Os amantes tentam a todo instante abater um ao outro. Vivem um amor tumultuado, fazendo do dia-a-dia uma guerra existencial, filosófica e política.
 (Pedro Maciel é poeta, publicou "Longe da terra dentro do ar" (poesia), "Olegário das Gaiolas” (fábula). Organizou e prefaciou "Poemas Eskolhydos, de Glauber Rocha, entre outros livros.)


quarta-feira, 20 de junho de 2012

O estrangeiro


O romance O estrangeiro, de Albert Camus, narra uma história bastante concisa e sob a perspectiva existencialista, proposta filosófica, que valoriza os sentimentos dos personagens e coloca em oposição valores impostos por uma sociedade cruel, fria, e que não respeitava a dignidade do cidadão. A Grande Depressão, a Segunda Grande Guerra e o descobrimento da bomba atômica são fatos que influenciaram a obra de Camus. Ele acreditava que o que de mais trágico existia na condição humana era o absurdo, o limite entre aspirações e realidade.

O personagem principal é Meursault, um jovem escriturário, um homem comum. Ele não possui ambições e demonstra pouca empatia social. Contenta-se com prazeres imediatos. Sua indiferença para com o mundo se expressa na frase, várias vezes repetida: “Tanto faz”. Ter uma posição melhor no trabalho, casar com uma mulher, sem a amar, apenas para deixá-la feliz, perder a mãe, não fazia muita diferença, uma vez que mais dia, menos dia, as coisas aconteciam independentes da nossa vontade.

Surge o inesperado. Meursault assassina um árabe em um dia de sol muito quente, em uma praia. Ele não sabe explicar o motivo desse seu ato. Camus, provavelmente, realçou o fato da personagem ter matado um árabe, visto que a maior parte da população da Argélia era de árabes, enquanto os franceses controlavam o país. Meursault, por não ser árabe, era um estrangeiro no lugar onde vivia.

Na prisão, ele procura nas suas lembranças uma forma de driblar a monotonia das intermináveis horas de solidão, em que o tempo escoa idêntico a cada dia. Mas, apesar de toda a sua indiferença, ele deseja voltar a ser livre para poder nadar, ir à praia, encontrar-se com Marie.

Em suas reflexões, mesmo antes de ser preso, ele conclui que o homem se habitua a tudo na vida, principalmente às perdas. Em várias passagens do livro ele se refere ao ato de habituar como uma forma de viver. A maior dificuldade era se habituar à perda da sua liberdade de ir e vir.

“Todos sabem que a vida não vale a pena ser vivida. No fundo, ignorava que morrer aos trinta ou aos setenta anos tanto faz, pois em qualquer dos casos outros homens e mulheres viverão, e isso durante milhares de anos. No fim das contas, isso era claro como água, hoje ou daqui a vinte anos, era o mesmo eu quem morria”.

O livro faz também uma crítica ao sistema judiciário, mostrando como os advogados e promotores manipulam a verdade. No caso de Meursalt, durante seu julgamento eles fazem com que o réu se torne um mero espectador de seu destino. E ainda levantam outras questões de sua vida, em que sua apatia tomava a forma de um crime. Como em um teatro de absurdos, o seu verdadeiro crime perde a relevância. Por fim, ele é condenado à morte.

Em toda a narrativa, a paisagem mostra uma cidade muito quente, ensolarada, areia, mar e muita luz. Essa paisagem parece estar associada à natureza de Meursalt. Ele seria um estrangeiro, vindo de um lugar em que o clima era bem diferente, e vivia em um cenário onde a luz e o calor do sol desnorteia o homem, não havia sombras. Por ironia, os seres humanos criavam suas próprias sombras.

sábado, 16 de junho de 2012

Tropical sol da liberdade


Tropical sol da liberdade, de Ana Maria Machado, é um romance histórico, político e psicológico, pois traz para o leitor experiências e notícias de fatos marcantes dos anos da ditadura militar. Tudo isso a partir de uma visão feminina, uma vez que a protagonista é uma jornalista, Lena, com suas lembranças da infância e juventude, ao lado da família e de amigos.

Helena é uma mulher muito independente, desde criança gostava de tomar suas próprias decisões. Em um dado momento precisa de ajuda da mãe, por motivos de saúde. Essa atitude é muito difícil para ela, uma vez que seu relacionamento com a mãe nunca foi dos mais gratificantes. No entanto, com o passar dos dias ao lado da mãe, ela compreende os motivos das decisões tomadas por sua mãe durante a vida, pois tudo era feito com amor e, como todas as mães, ela sempre fizera o que achava importante para a felicidade e bem estar dos filhos.

Nas recordações de Lena, o avô ocupa um lugar de destaque, como uma figura muito marcante em sua vida. Ele mostrava a ela a simplicidade da sabedoria da natureza. As árvores desfolhavam no outono para economizar energia, que dispensaria à fotossíntese, para sobreviver ao inverno e renascer na primavera, com folhas novas e flores. Essa lembrança fez com que ela se sentisse como aquela árvore, pois naquele momento Lena se encontrava desfolhada, triste por suas perdas recentes, mas, diferente da árvore, ela ainda não via que logo viria sua primavera, e se poderia se renovar em novas folhas e flores.

A narração incorpora o modo de falar ou pensar do narrador, em uma linguagem que reflete sua condição social. Por meio dos diálogos percebemos onde os personagens moram, e as gírias sinalizam a época em que os fatos acontecem.

A autora, antes de cada capítulo, cita um poema ou parte de uma melodia. É como um diálogo com autores como Drummond, Vinícius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maurício Tapajós, Paulo César Pinheiro e Paulinho da Viola. Esse recurso, também encontrado dentro da narrativa, mostra que os personagens são pessoas de classe média e intelectuais, e ainda, contextualizam o período em que os fatos ocorreram, uma vez que são versos alusivos à pátria, ao exílio ou a questões de natureza existencial: “Falo somente para quem falo:/ quem padece sono de morto/e precisa um despertador/acre, com o sol sobre o olho:/que é quando o sol é estridente,/a contrapelo, imperioso,/e bate nas pálpebras como/se bate numa porta a socos” (João Cabral de Melo Neto); “Você corta um verso/eu escrevo outro/você me prende vivo/eu escapo morto/de repente olha eu de novo/perturbando a paz/exigindo o troco”. (Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro).

Há também algumas citações bíblicas como “Debaixo do sol observei ainda o seguinte: a injustiça ocupa o lugar do direito, e a iniqüidade ocupa o lugar da justiça. Então eu disse comigo mesmo: “Deus julgará o justo e o ímpio, porque há tempo para todas as coisas e tempo para toda obra” (Eclesiastes, 3:16-17).

domingo, 29 de abril de 2012

O homem duplicado



O homem duplicado narra a vida de Tertuliano Máximo Afonso, um  homem à procura de respostas para o caso insólito em que está inserido. Pensar o ser e o agir neste livro conduz o leitor aos labirintos da sensibilidade humana esquecida em meio às ocupações. Da igualdade retirada nas diferenças, o fundamento unificador da existência do personagem, possibilita a interpretação em termos do homem agir em função da própria compreensão.(Madalena Aparecida Machado, doutoranda em Ciência da Literatura, UFRJ)

“O homem duplicado”, de José Saramago, conta a história de um professor de história que, ao ver um filme em um videocassete, se assusta com um personagem que é igual a ele, como se fossem gêmeos. Tertuliano Maximo Afonso começa a investigar o ator, até encontrar o seu endereço. Com as informações em mãos, ele se atormenta com uma série de pensamentos relacionados ao que poderia acontecer se resolvesse se encontrar com o ator, de nome Antonio Claro.

Tertuliano é divorciado e tem uma namorada, Maria da Paz. É um homem solitário e metódico em sua rotina. Ele revela a descoberta do sósia apenas para sua mãe, Carolina, que o aconselha a contar o segredo a Maria da Paz e a não se encontrar com seu duplo. No entanto, ele telefona para Antonio Claro e, posteriormente, marcam um encontro. Nesse encontro, Tertuliano decide que aquela história deveria ter um ponto final a partir daquele momento. Mas, para Antonio Claro a vida mudou, pois sua mulher ficou muito transtornada com a existência de um duplo de seu marido, causando problemas em seu relacionamento conjugal. Assim, Antonio Claro resolve se vingar de Tertuliano. Essa vingança, inesperadamente, muda a trajetória de suas vidas.

Saramago caracteriza muito bem seus personagens por meio do interior de cada um deles. Os questionamentos de ambos, depois da descoberta do outro, exploram sentimentos controversos vivenciados no presente e expectativas complicadas quanto ao futuro. Enquanto Tertuliano achava que o seu espírito sossegaria e poderia se sentir livre depois de se encontrar cara a cara com o seu duplo, Antonio Claro começa a se sentir atormentado como Tertuliano havia se sentido quando descobriu, no filme, o seu sósia. (Rô Andrade)