sábado, 29 de outubro de 2011

O que faz você feliz?

O que faz você feliz?
(Arnaldo Antunes)

O que faz você feliz?
A lua, a praia, o mar
Uma rua, passear
Um doce, uma dança
Um beijo ou goiabada com queijo?
Afinal, o que faz você feliz?
Chocolate, paixão
Dormir cedo, acordar tarde
Arroz com feijão, matar a saudade
O aumento, a casa, o carro que você sempre quis
Ou são os sonhos que te fazem feliz?
Dormir na rede, matar a sede
Ler ou viver um romance
O que faz você feliz?
Um lápis, uma letra, uma conversa boa
Um cafuné, café com leite, rir a toa
Um pássaro, um parque, um chafariz
Ou será o choro que te faz feliz?
A pausa para pensar
Sentir o vento
Esquecer o tempo
O céu
O sol
Um som
A pessoa ou o lugar
Agora me diz o que faz você feliz?

O que faz você feliz?
aquela comida caseira,
arroz com feijão
brincar a tarde inteira
o molho do macarrão
ou é o cheiro da cebola fritando que faz você feliz?
o papo com a vizinha,
o bife, a batatinha
a goiabada com queijo
um doce ou um desejo
afinal o que faz você feliz?

O que faz você feliz?
ficar de bobeira
assaltar a geladeira
comer frango com a mão
tomar água na garrafa
passar azeite no pão
ou é namorar a noite inteira que faz você feliz?
rir e brindar a toa
um filme, uma conversa boa
fazer um dia normal virar uma noite especial
afinal, o que faz você feliz?

O que faz você feliz?
comer morango com a mão
por açúcar no abacate
brincar com melão, goiaba, romã, jabuticaba
ou é o gostinho de infância que faz você feliz?
cuspir sementes de melancia
falar besteira, ficar sem fazer nada
plantar bananeira, ou comer banana amassada?
afinal, o que faz você feliz? O que faz você feliz?
A lua, a praia, o mar
Uma rua, passear
Um doce, uma dança
Um beijo ou goiabada com queijo?
Afinal, o que faz você feliz?
Chocolate, paixão
Dormir cedo, acordar tarde
Arroz com feijão, matar a saudade
O aumento, a casa, o carro que você sempre quis
Ou são os sonhos que te fazem feliz?
Dormir na rede, matar a sede
Ler ou viver um romance
O que faz você feliz?
Um lápis, uma letra, uma conversa boa
Um cafuné, café com leite, rir a toa
Um pássaro, um parque, um chafariz
Ou será o choro que te faz feliz?
A pausa para pensar
Sentir o vento
Esquecer o tempo
O céu
O sol
Um som
A pessoa ou o lugar
Agora me diz o que faz você feliz?

O que faz você feliz?
aquela comida caseira,
arroz com feijão
brincar a tarde inteira
o molho do macarrão
ou é o cheiro da cebola fritando que faz você feliz?
o papo com a vizinha,
o bife, a batatinha
a goiabada com queijo
um doce ou um desejo
afinal o que faz você feliz?

O que faz você feliz?
ficar de bobeira
assaltar a geladeira
comer frango com a mão
tomar água na garrafa
passar azeite no pão
ou é namorar a noite inteira que faz você feliz?
rir e brindar a toa
um filme, uma conversa boa
fazer um dia normal virar uma noite especial
afinal, o que faz você feliz?

O que faz você feliz?
comer morango com a mão
por açúcar no abacate
brincar com melão, goiaba, romã, jabuticaba
ou é o gostinho de infância que faz você feliz?
cuspir sementes de melancia
falar besteira, ficar sem fazer nada
plantar bananeira, ou comer banana amassada?
afinal, o que faz você feliz?

Esperança

Versos extraídos da obra “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto


Belo porque é uma porta 
abrindo-se em mais saídas.  

Belo como a última onda 
que o fim do mar sempre adia.  

é tão belo como as ondas 
em sua adição infinita. 


Belo porque tem do novo 
a surpresa e a alegria.  

Belo como a coisa nova 
na prateleira até então vazia.  

Como qualquer coisa nova 
inaugurando o seu dia.  

Ou como o caderno novo 
quando a gente o principia. 
 
E belo porque o novo 
todo o velho contagia.   

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Ensaio sobre a Lucidez, José Saramago

Em Ensaio sobre a Lucidez, assim como no livro Ensaio sobre a Cegueira, não ficamos sabendo o nome da cidade onde se passa a trama, nem os nomes das pessoas, caracterizadas pela profissão ou por sua ocupação na sociedade. Da mesma forma, não nos é informado quando os fatos aconteceram. Esse recurso deixa livre a imaginação do leitor, que pode contextualizar a obra de acordo com seus próprios conhecimentos.
É dia de eleições municipais em uma capital. A existência de um primeiro ministro na condução do país nos mostra que se trata de um regime democrático parlamentar. Chove muito, o que causa um grande número de abstenções. Além disso, 70% dos votos são em branco. Nova eleição é marcada para o próximo domingo. A população comparece em peso. O governo coloca espiões nas filas para ver se alguém está incentivando o voto em branco. Na apuração dos votos, grande surpresa: 83% votam em branco, abstenções zero, votos nulos, zero.
O governo acredita que os votos em branco vieram desferir um golpe brutal contra a normalidade democrática. Desejavam punir os conspiradores, quando na verdade nenhum crime havia sido cometido. “Era totalmente desprovido de sentido suspender direitos a quem não havia cometido outro crime que exercer precisamente um deles.”
O governo começa a investigar e a prender pessoas. Declara-se o estado de sítio, mas a população continua a viver normalmente. O governo decide deixar a capital e transferir o governo para uma cidade vizinha, deixando, ainda assim, a cidade cercada. A saída do governo não causa espanto na população que ilumina o caminho para os carros das autoridades.
Para alarmar os habitantes e colocar a culpa em alguém, porque é regra do poder que, às cabeças, o melhor será cortá-las antes que comecem a pensar, é lançada uma bomba perto de uma das estações do metro. A bomba lhes cai no colo. A população se une ainda mais. Sabe que a provocação veio de fora. Dos que abandonaram a cidade. Mesmo quando toda a mídia insinua o contrário, insinuando um ataque terrorista.
Os governantes relembram a cegueira de quatro anos atrás. O voto branco seria uma manifestação de cegueira tão destrutiva como a outra, ou de lucidez, disse o ministro da justiça. Uma manifestação de lucidez por parte de quem a usou. Poucos dias depois, uma carta chega às mãos do presidente. O autor conta que, por ocasião da cegueira, uma mulher não havia cegado, podendo ser considerada suspeita, pois além de não ter cegado, tinha matado uma pessoa.
São destacados três policiais para averiguar a denúncia. Essa diligência fora desenhada para fazer de um inocente um culpado. Na experiência do ofício policial, sabia-se que as meias palavras existem para dizer o que as inteiras não podem. Nas palavras do ministro do interior, as provas que não há, afinal estão lá. Há casos em que a sentença já está escrita antes do crime.
Eles começam a investigar, mas não encontram nada suspeito. Como o governo insistisse em encontrar o culpado, o comissário alerta a mulher que não cegara sobre as intenções governamentais de querer culpá-la pelos votos em branco. Ele descreve toda a verdadeira história sobre os votos, a fuga, os erros e os medos do governo, as investigações, e entrega o dossiê a um pequeno jornal. Um dia após a publicação das suas denúncias, ele é assassinado. A partir daí, começam os desentendimentos entre os membros do governo, com demissões de alguns e acumulação de funções por outros.
No dia seguinte ao assassinato do comissário, dois policiais à paisana vão à casa do oftalmologista e o levam algemado para prestar depoimentos. A mulher fica sozinha em casa. O mesmo homem que havia assassinado o comissário se coloca em um prédio na mesma direção do apartamento da mulher do médico e, quando ela chega à janela, ele dispara dois tiros fatais e ainda um terceiro, que mata o cão das lágrimas, Constante era seu nome.
Fatos reais:
Dois fatos históricos podem nos remeter a acontecimentos da narrativa. O primeiro é a vinda da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, fugindo de Portugal para não enfrentar as tropas de Napoleão Bonaparte. Deixou o país órfão e trouxe toda a nobreza para o Brasil, escoltados pelos ingleses, com quem fizeram acordos.
No dia 1º de maio de 1981, acontecia um show em homenagem aos trabalhadores, no Riocentro. Dois militares levavam, dentro de um Puma, uma bomba para colocar no local e culpar “terroristas”. Entretanto, a bomba explodiu no colo do sargento Guilherme do Rosário, que morreu na hora, e deixou o capitão Wilson Machado gravemente ferido. Somente em 1999 o caso foi reaberto e desvendado.
 “Os humanos são universalmente conhecidos como os únicos animais capazes de mentir. Às vezes o fazem por medo, às vezes por interesse ou como a única maneira de defenderem a verdade.”
 “Sítio significa cerco, ou assédio. Então, ao declararmos estado de sítio é como se tivéssemos a dizer que a capital do país se encontra sitiada, cercada, assediada por um inimigo... quando a verdade é que esse inimigo não está fora, mas dentro.”
 “... neste mundo tudo é possível. Imagino que os nossos melhores especialistas em tortura também beijam os filhos quando chegam em casa, e alguns chegam até a chorar no cinema.”
“Prudente é não despertar o dragão que dorme, estúpido é aproximar-se dele quando está acordado.”
“A lucidez é uma condição mental que nos prepara para atingir melhores desempenhos em nossa vida. Lucidez vem da palavra luz e quer dizer clareza, claridade. A lucidez é racional, adquirida pelo conhecimento. Enquanto em Ensaio sobre a cegueira Saramago descreve uma cidade em que as pessoas ficam cegas, literalmente, por considerá-las cegas, metaforicamente, Ensaio sobre a Lucidez mostra a escura combinação entre a democracia vazia inventada pela burguesia e o poder da grande mídia para manter a dominação. O voto em branco representa um nível de consciência, o direito ao exercício de cidadania.”

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Meu nome é Khan

Meu nome é Khan é um belíssimo filme indiano, dirigido por Karan Johar. Conta a história de Khan, um muçulmano com síndrome de Asperger, que se muda para São Francisco após a morte da mãe. Na cidade, ele vai morar com o irmão mais novo e sua esposa. A partir daí, sua cunhada, psicóloga, vem a descobrir o seu problema.

A mãe de Khan teve um papel muito importante em sua vida. Mesmo desconhecendo a doença do filho, ela o compreende e lhe ensina coisas que vão marcá-lo por toda a vida, fazendo dele um homem bom. Desde pequeno ela lhe mostra que só existiam dois tipos de pessoas no mundo: as boas e as más, deixando bem claro que não eram as diferenças raciais que as distinguiam, mas os valores de cada ser humano.

Khan trabalha e se casa com Mandira, que já tinha um filho, e formam uma família feliz. Entretanto, após o 11 de setembro, muitas pessoas começam a hostilizar os muçulmanos residentes nos Estados Unidos. A violência acaba causando uma tragédia na vida de Khan e Mandira.

Em uma discussão com a mulher, ela lhe pede para dizer ao presidente dos Estados Unidos que ele, Khan, não é um terrorista. Ele toma a palavra ao pé da letra e sai de casa com a intenção de fazer exatamente o que ela lhe pedira. No percurso, que dura alguns meses, até o encontro com o presidente, Khan passa por uma série de experiências, boas e ruins, que não o impedem de cumprir com sua promessa.

Como a doença o impedia de expressar, verbalmente, a maior parte dos seus sentimentos, durante a viagem ele vai escrevendo toda a sua vida, em detalhes, a fim de entregar o diário ao seu grande amor, Mandira.

O filme nos faz refletir sobre as injustiças que podem ser cometidas contra um povo ou uma determinada raça, assim como a importância da educação e do amor, proporcionados pela família, na vida de uma pessoa.

sábado, 30 de julho de 2011

Resíduo, Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
Ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
Captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
De ternura ficou um pouco
(muito pouco)

Pouco ficou deste pó
De que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
De duas folhas de grama,
Do maço
- vazio – de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco do teu queixo
No queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
Um pouco ficou, um pouco
Nos muros zangados,
Nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
No pires de porcelana,
Dragão partido, flor branca,
Ficou um pouco
De ruga na vossa  testa,
Retrato.

Se de tudo fica um pouco,
Mas por que não ficaria
Um pouco de mim? No trem
Que leva ao norte, no barco,
Nos anúncios de jornal,
Um pouco de mim em Londres,
Um pouco de mim algures?
Na consoante?
No poço?

Um pouco fica oscilando
Na embocadura dos rios
E os peixes não o evitam,
Um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
Pinga esta gota absurda,
Meio sal e meio álcool,
Salta esta perna de rã,
Este vidro de relógio
Partido em mil esperanças,
Este pescoço de cisne,
Este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
De mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
De tudo ficou um pouco;
Vento nas orelhas minhas,
Simplório arroto, gemido
De víscera inconformada,
E minúsculos artefatos:
Campânula, alvéolo, cápsula
De revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
E abafa
O insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
E sob as ondas ritmadas
E sob as nuvens e os ventos
E sob as pontes e sob os túneis
E sob as labaredas e sob o sarcasmo
E sob o soluço, o cárcere, o esquecido
E sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
E sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
E sob tu mesmo e sob teus pés já duros
E sob os gonzos da família e da classe,
Fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

Drummond, o poeta que não suspirava

“Quando eu nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida”. O termo “gauche”, em sentido figurado, quer dizer às avessas, do lado torto, inadaptado à realidade que o rodeia. Drummond nasceu em Itabira, uma cidade rica em minério de ferro. Seu pai era muito calado, e com sua mãe teve grandes laços de afeto.
(...) Abençoa-me e acaricia-me, porque sou sempre criança a teus olhos, enquanto o velho em mim se confirma. E se dentro de mim existires, em ti também vou existindo e nossas vidas se confundem...”

Na infância tomou gosto pelos livros e, logo que começou a estudar, fez a mais bela redação da sala. Mesmo tímido, trocava publicações com outras pessoas, revistas vindas do Rio de Janeiro, com textos de autores renomados. Aos dezoito anos mudou, com a família, para Belo Horizonte. Fez amizade com jovens boêmios como Pedro Nava, Abgar Renault, Emílio Moura, Alberto Campos, João Alphonsus de Guimarães, dentro outros, com os quais lançou o Modernismo em Minas Gerais. Nessa mesma época, iniciou o curso de Farmácia, concluído em 1925, mas não se adaptou à profissão, nem às atividades de fazendeiro como o pai. Casou-se com Dolores e passou a lecionar Português e Geografia em um ginásio, em Itabira. Voltou a Belo Horizonte, trabalhou como redator-chefe do jornal Diário de Minas, mais tarde deixou o jornal para trabalhar em outras publicações oficiais.

Em 34 mudou-se para o Rio de Janeiro e torna-se funcionário público, segundo ele, para sustentar a família. Acumula as funções de cronista e faz poesia, por vocação. Aposentou-se do funcionalismo e da crônica, jamais abandonou a poesia.

Carlos Drummond de Andrade exerceu 56 anos de atividade poética. Seus primeiros escritos são influenciados pelo movimento modernista de 1922, como Alguma Poesia e Brejo das Almas, com temas cotidianos e o predomínio do “eu”.  Em seguida passou a abordar os temas sociais e uma linguagem mais sóbria e clássica, como em Sentimento do Mundo, José e A Rosa do Povo.

Mãos Dadas:
“Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
(...)
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
(...)
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

Do livro Novos Poemas até A vida passada a Limpo, os poemas tratam de temas sociais e individuais, de questionamentos sobre o sentido da vida, com muitas contradições.  Já em Lição de Coisas, o poeta sintetiza as fases anteriores, retomando o humor da primeira fase. Em suas últimas obras, cultivou a memória, os amigos, o amor, questionou a vida, os homens e a si mesmo. Os poemas de Amor Natural, considerados eróticos, surgiram como novidade na época.

Sob o chuveiro amar
Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
Ou na banheira amar, de água vestidos,
Amor escorregante, foge, prende-se,
Torna a fugir, água nos olhos, bocas,
Dança, navegação, mergulho, chuva,
Essa espuma nos ventres, a brancura
Triangular do sexo – é água, esperma,
É amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?”


A família, os amigos, a terra natal, o choque com o mundo, foram tentativas de interpretar o porquê da existência. O “eu retorcido” na busca por situar-se como indivíduo e solucionar contradições é um tema relevante em sua obra. De riso raro, Drummond fez da poesia seu canal de comunicação com  o mundo.

Em 1987, Maria Julieta, sua única filha, faleceu em decorrência de um câncer. O poeta, não suportando a perda, faleceu doze dias depois, deixando algumas obras inéditas. No poema A mesa, há um fragmento em alusão a sua filha:

“Repara um pouquinho nesta,
No queixo, no olhar, no gesto,
E na consciência profunda
E na graça menineira,
E dize, depois de tudo,
Se não é, entre meus erros,
Uma imprevista verdade.
Esta a minha explicação,
Meu verso melhor ou único,
Meu tudo preenchendo meu nada”.

A caixa preta, Amoz Oz


Por meio de cartas entre os envolvidos na trama, um relacionamento é passado a limpo. Seus remetentes escreviam tudo que sentiram e sentiam em relação ao outro. Numa mesma carta encontram-se elogios, lembranças boas, assim como são colocadas as mágoas, expectativas não correspondidas, amor e ódio.

O livro começa com uma carta sendo enviada por Ilana ao seu ex-marido, Alexander, depois de sete anos de separação, em um divórcio conturbado no qual ela e filho não receberam nada em dinheiro, nem em contatos. Ela conta a Alexander os problemas que o filho deles, Boaz, vem passando. O rapaz não se adapta a nenhuma escola, é arredio, embora tenha um bom coração. Ilana mora em Jerusalém, é casada com Michel, um judeu fanático, e têm uma filha, Yifat.  Alexander é um famoso escritor e professor, residindo nos Estados Unidos, mas que viaja constantemente para dar palestras.

Depois de ler a extensa carta de Ilana, Alec responde, friamente, pedindo que ela aguarde o contato de seu advogado, Zahkeim, que lhe dará uma quantia em dinheiro, sugerida por ela, para ajudar na educação do filho. Em seguida escreve uma carta ao marido de Ilana, explicando a doação. O advogado não concorda com a forma com que Alec vem cedendo dinheiro à família de Ilana e também se manifesta por meio de cartas ou telegramas.

Por razões que a princípio Ilana não consegue explicar, talvez para deixar claro tudo que havia acontecido no passado, ela passa a escrever ao ex-marido com muita freqüência, escondido do marido. São cartas em que questiona muitos aspectos do tempo em que viveram juntos e relata, ainda, sua vida no presente. Às vezes chora, se emociona, às vezes sente raiva e esbraveja. Ele responde às cartas, e de certa forma, muitas coisas vão sendo esclarecidas.

Há também cartas trocadas entre Michel e Boaz, entre Ilana e sua irmã, Rahel, e entre Michel e Alexander. Aos poucos as cartas entre Ilana e Alec se tornam menos duras, e eles conseguem “conversar” melhor, tentando cada um entender o outro.

As referências ao judaísmo são, na maioria das vezes, feitas por Michel, que venera as escrituras, a Torá. Ele funda um movimento pela libertação de Israel. Já Alec, apesar de ser judeu, condena o fanatismo religioso. No seu livro menciona “na alma do fanático estão fundidas a violência, a redenção e a morte em única massa. Alex Guideon faz, em seu livro, uma análise lingüística precisa do vocabulário característico a todos os fanáticos nas diversas eras e nos extremos diversos do espectro religioso e ideológico.”

Interessante Alex mencionar a epígrafe do seu livro, retirada de Jesus, distinguindo-o como um delicado fanático: “Todos os que vivem pela espada, pela espada morrerão”. “Não pensem que vim trazer paz para a Terra; não vim trazer a paz, mas a espada”. No mesmo livro ele aborda o “catolicismo melado”, quando diz que a felicidade é basicamente uma banal invenção católica. No judaísmo não existe nenhum conceito de felicidade. O judaísmo reconhece apenas a alegria, efêmera. Ilana responde que há felicidade no mundo, e que o sofrimento não é o seu oposto. Cita e discorda de Tolstoi “todas as famílias felizes se parecem, enquanto as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”.

Entre as cartas surgem algumas notas escritas pelo professor Alexander Guideon em pequenas folhas. Todas as anotações são numeradas e parecem ser um exercício de reflexão de Alex, ou temas para palestras. Mais tarde fica-se sabendo que ele é uma pessoa extremamente organizada.

Nas primeiras notas há reflexões sobre o futuro, o passado e o presente. “A negação do Presente é um disfarce para a autonegação”. Nascimento e morte. Diz que a antiga língua hebraica não possui o tempo presente, apenas o particípio. O tempo não é aquele em que as palavras são lidas, mas como a representação de uma peça teatral. Paradoxalmente, o desejo de destruir o presente em nome do passado e do futuro envolve sua própria contradição: a abolição de todos os tempos. A história, junto com os poetas, é banida da república ideal de Platão. E de Jesus e de Lutero e de Marx e de Mao e de todos os outros. E habitará o lobo com o cordeiro.

Em outras notas se refere à fé, à redenção. Fala que a fé é a capacidade de não distinguir mais nada, em que se perde a auto-estima (pág. 153). Um homem se ocupa com suas próprias questões enquanto tem interesses e privacidade. Na ausência destes, pelo medo do vazio da vida, ele se volta para os assuntos dos outros.

Boaz vai morar na mansão abandonada que o pai lhe deu. Leva alguns amigos e começam as reformas, com muito entusiasmo. Ilana vai passar uns dias com ele e os amigos e leva a filha. Na mesma ocasião, sem combinações, Alec, doente, com câncer no abdômen, vai visitar o filho e, a convite dele, fica morando na casa. Michel acha que está sendo traído e quer a filha de volta. Alec lhe explica que não fora nada combinado e que Ilana resolvera ficar como enfermeira dele, que não havia qualquer relacionamento entre eles. Seus dias estavam contados. Mas Michel, assim como Alec, também quer ter sua autoridade, busca a filha e prepara os papéis de divórcio com Ilana.

O livro termina com Alec ainda vivo, porém muito fraco. Ilana escreve uma carta pedindo perdão a Michel, pedindo também que a receba de volta, pois ela o ama. Ele responde, por meio de versículos bíblicos, que Deus sempre perdoa. Quanto ao seu perdão, fica uma dúvida.