domingo, 29 de abril de 2012

O homem duplicado



O homem duplicado narra a vida de Tertuliano Máximo Afonso, um  homem à procura de respostas para o caso insólito em que está inserido. Pensar o ser e o agir neste livro conduz o leitor aos labirintos da sensibilidade humana esquecida em meio às ocupações. Da igualdade retirada nas diferenças, o fundamento unificador da existência do personagem, possibilita a interpretação em termos do homem agir em função da própria compreensão.(Madalena Aparecida Machado, doutoranda em Ciência da Literatura, UFRJ)

“O homem duplicado”, de José Saramago, conta a história de um professor de história que, ao ver um filme em um videocassete, se assusta com um personagem que é igual a ele, como se fossem gêmeos. Tertuliano Maximo Afonso começa a investigar o ator, até encontrar o seu endereço. Com as informações em mãos, ele se atormenta com uma série de pensamentos relacionados ao que poderia acontecer se resolvesse se encontrar com o ator, de nome Antonio Claro.

Tertuliano é divorciado e tem uma namorada, Maria da Paz. É um homem solitário e metódico em sua rotina. Ele revela a descoberta do sósia apenas para sua mãe, Carolina, que o aconselha a contar o segredo a Maria da Paz e a não se encontrar com seu duplo. No entanto, ele telefona para Antonio Claro e, posteriormente, marcam um encontro. Nesse encontro, Tertuliano decide que aquela história deveria ter um ponto final a partir daquele momento. Mas, para Antonio Claro a vida mudou, pois sua mulher ficou muito transtornada com a existência de um duplo de seu marido, causando problemas em seu relacionamento conjugal. Assim, Antonio Claro resolve se vingar de Tertuliano. Essa vingança, inesperadamente, muda a trajetória de suas vidas.

Saramago caracteriza muito bem seus personagens por meio do interior de cada um deles. Os questionamentos de ambos, depois da descoberta do outro, exploram sentimentos controversos vivenciados no presente e expectativas complicadas quanto ao futuro. Enquanto Tertuliano achava que o seu espírito sossegaria e poderia se sentir livre depois de se encontrar cara a cara com o seu duplo, Antonio Claro começa a se sentir atormentado como Tertuliano havia se sentido quando descobriu, no filme, o seu sósia. (Rô Andrade)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Mensagem do Perdão

Pietro Ubaldi (ubaldibh.org)

Mensagem escrita no dia 2 de agosto de 1932, dia do Perdão da Porciúncula, de Francisco de Assis.

(...)

Minha verdade é áspera e nua, contudo é a verdade. Peço o vosso esforço, mas dou a felicidade. Digo-vos: “Sofrei”, mas junto de vós estarei no momento da dor; com piedade maternal, velarei por vós; medindo todo o vosso esforço, proporcionarei as provas segundo vossa capacidade; finalmente, farei o que o mundo não faz: enxugarei vossas lágrimas.

O mundo parece espargir rosas, mas na verdade distribui espinhos; eu vos ofereço espinhos, porém vos ajudarei a colher rosas.

Segui-me, que o exemplo já vos dei. Levantai-vos, ó homens: é chegado o momento. Não venho para trazer guerra, mas, sim, paz. Não venho trazer dissensão às vossas idéias nem às vossas crenças: venho fecundá-las com meu espírito, unificá-las na minha luz.

Não venho para destruir e sim para edificar. O que é inútil morrerá por si mesmo, sem que eu vos dê exemplo de agressividade.
(...)

Não vos peço que compreendais meu poder, que me situa longe de vós; rogo-vos que compreendais o meu amor que me assemelha a vós e me coloca ao vosso lado. Meu poder poderá desalentar-vos e atemorizar-vos, dando-vos de mim uma ideia não justa, a de um senhor vingativo e despótico. Não quero vossa obediência por temor. Agora deve despontar uma nova aurora de consciência e de amor. Deveis elevar-vos a uma lei mais alta e eu retorno hoje para anunciar-vos a boa nova. Não sou um senhor vingativo e tirânico, como outrora, por necessidade, me supuseram os povos antigos; sou o vosso amigo e é com palavras de bondade que me dirijo ao vosso coração e à vossa razão.

Não mais deveis temer, mas, sim, compreender. Vossa razão infantil já acordou e nela venho lançar minha luz. Sou síntese de verdade e em toda a parte ela surgirá, atingindo a luz da vossa inteligência.

Não trago combates, mas paz. Não trago divisões de consciência e, sim, união de pensamentos e de espíritos.

A humanidade terrestre aproxima-se de sua unificação, numa nova consciência espiritual. Não vos insulteis, pois; antes, compreendei-vos uns aos outros. Que cada um concorra com o seu grãozinho para a grande fé e que esta vos torne todos irmãos.

Que a religião, que é revelação minha, e a ciência, que é o vosso esforço e todas as vossas intuições pessoais se unam estreitamente numa grande Síntese, e seja esta uma síntese de verdade.

Porque eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Palavras


“Para isto servem as palavras, para estabelecer laços entre as pessoas – e para criar beleza. Pelo que a elas devemos ser eternamente gratos”. (Moacyr Scliar)

Jesus não deixou quaisquer palavras escritas, mas suas palavras permanecem vivas até hoje, perpetuadas nos evangelhos, escritos por seus discípulos.

Para que sua mensagem de amor alcançasse a eternidade, Jesus falava por meio de parábolas. Dessa forma, de acordo com o contexto social e histórico em que as pessoas viviam e viveriam, elas poderiam ser interpretadas. Muitos são os significados atribuídos às suas palavras, e a partir desses significados as religiões foram criadas pelos homens. No entanto, embora cada um interprete as palavras conforme seus valores e saberes, a lei maior – do amor – não se perdeu.

Podemos perceber tão poderosa e necessária é a palavra, pois é por meio dela que adquirimos conhecimento. Por meio do conhecimento e da experiência ganhamos sabedoria.  É sábio aquele que usar a palavra com humildade, como Jesus nos ensinou.

Hoje nos formamos professores e podemos seguir os ensinamentos do Mestre Jesus em nossa tarefa de ensinar e educar. Fazendo com amor o trabalho que nos propusermos a executar, procurando respeitar o próximo com suas particularidades e necessidades. Confiantes no Mestre, esperamos saber ser pacientes e tolerantes nas horas difíceis, e que o orgulho não nos transforme em pessoas egoístas e prepotentes.

A ferramenta no nosso trabalho, a partir de hoje, será a palavra. Com ela poderemos contribuir para um mundo melhor. Somemos a ela o amor de Cristo para sairmos vitoriosos em nossa jornada futura!

Maria do Rosário



Tia Julia e o escrevinhador

A mesma leveza de Travessuras da menina má e o mesmo estilo narrativo de O paraíso é na outra esquina podem ser encontrados nesta obra de Mario Vargas Llosa. Tia Julia e o escrevinhador alterna os capítulos entre as memórias de adolescência e juventude do autor com as novelas de rádio do personagem Pedro Camacho. Por meio dos sonhos da juventude, dos costumes e das leis vigentes, o autor nos apresenta a situação social, política e econômica da Lima nos anos 50.

Varguitas, apelido de Mario, estuda direito, trabalha na edição de notícias em uma rádio e sonha se mudar para Paris e se tornar escritor. Ele conhece Pedro Camacho, um contador de histórias que escreve novelas de rádio e fica perplexo com a rapidez e imaginação com que Camacho escreve as novelas, ao passo que ele, Varguitas, encontra muitas dificuldades para escrever um conto, perfeccionista que é em busca da verdadeira literatura, é seu maior crítico e juiz.

Camacho é um homem mergulhado totalmente ao trabalho, escrevendo ininterruptamente e simultaneamente quatro novelas, que caem no gosto popular e o transformam em um ídolo. Ele se dedica tanto ao trabalho que não se alimenta regularmente e não tem qualquer distração em sua vida. Com o passar do tempo, Camacho começa a misturar os personagens das novelas, em seguida passa a matá-los em grandes catástrofes, causando indignação em seu público. Por fim, não há outra alternativa senão interná-lo em um hospital psiquiátrico.

Paralelamente às suas pretensões literárias, Varguitas se apaixona por sua tia Julia, uma mulher de 30 anos, recentemente divorciada, que voltara para Lima em busca de um novo marido. O namoro é mantido em segredo por um bom tempo, mas quando toda a família fica sabendo, ele resolve se casar com ela, causando grandes transtornos no círculo familiar. Os noivos se envolvem em muitas aventuras para conseguirem oficializar o matrimônio, que são narradas com muito humor.

A história termina com um breve resumo do autor sobre os últimos doze anos de sua vida, em uma das visitas que faz anualmente a Lima. Ele se tornara escritor e havia morado em Paris, conforme sonhara. Desta vez ele reencontra alguns amigos da juventude e entre eles Pedro Camacho. Este ocupava um posto inferior em uma revista e era motivo de gozações de seus colegas, mas para Vargas Llosa era alguém que ainda merecia seu respeito.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Letras em curso: breves palavras



Escolher o curso de Letras foi fácil, pois as palavras sempre me despertaram, me surpreenderam, e com elas havia e, ainda há, uma relação de cumplicidade. O significado delas muitas vezes me foi colocado de formas diferentes. Minha mãe sempre dizia que o papel aceita tudo, referindo-se à palavra escrita. Gonzaguinha, em uma de suas músicas, dentro do contexto da ditadura militar, dizia “palavras, palavras, você só fala, promete e nada faz. Palavras, palavras, desde quando sorrir é ser feliz? Cantar, nunca foi só de alegria, com tempo ruim todo mundo também dá bom dia”. Brincar com as palavras é um exercício antigo.

A primeira etapa do curso foi surpreendente, com um universo de disciplinas belíssimas que muito me ensinaram. Platão, Sócrates e Aristóteles. Marx, Weber e Durkheim analisados pela Fernanda. A formação do povo brasileiro abordada de forma clara e inteligente pelo professor Daniel. O professor Alexandre com suas profundas e ricas aulas nos apresentou Clarice, Kafka, Drummond e Dostoievski. Ciência política com a competente professora Alessandra abriu muitos olhos, com certeza.

As professoras Lilian e Juraci brilharam em suas aulas de literatura, sem esquecer os ensinamentos adquiridos nas aulas de Crítica Literária. Em Teoria da Literatura já começamos a exercitar a comparação da obra que estávamos analisando com outra, sob quaisquer perspectivas. Nessa linha a Lilian propôs várias leituras, tanto de livros quanto de filmes. Oscar Wilde, James Joyce, Virgínia Woolf, Susan Glaspel, Alice Walker, são apenas alguns nomes de grandes autores que a Juraci nos fez conhecer. Clássicos ou contemporâneos, portugueses ou brasileiros, ingleses ou americanos, os autores e suas obras enriqueceram nosso paladar literário.

Foram cinco projetos de estágio: inglês e português. Muita tranqüilidade e aprendizado com Alan, Mônica, Kênia e Luiz. Vale destacar o projeto de Gêneros Textuais, elaborado pela Gisa e eu para o estágio com o professor Luiz, pois ficou muito bom e está guardado com carinho.

Grande surpresa foram as aulas da professora Irene. Quando pensávamos que a matéria seria cansativa, surpreendemo-nos com o brilhantismo da professora na exposição do conteúdo. A Maria Célia muito contribuiu com as teorias de Vigotsky e principalmente com as propostas de exercícios para aplicação pelos futuros professores. As jovens Cinthya e Kênia mostraram que não são fáceis, são competentes e ótimas professoras.

Os professores Alan, Edna e Luiz trilharam conosco os caminhos da lingüística. Cada qual no seu quadrado, com muita sabedoria. O professor Luiz e a professora Edna foram responsáveis pela melhoria na qualidade da minha escrita. Leitura e produção de textos e Análise do discurso foram matérias pelas quais me apaixonei. Pena que durante o termo em que estávamos estudando AD aconteceram mudanças no Pitágoras, privando-nos de algumas aulas e lições.

A bagagem, sem dúvida, foi grande. O balanço, bastante positivo. Lembro ainda que não ganhamos apenas conhecimento, mas também lições de vida. A convivência com os colegas, principalmente nos trabalhos em equipe, fizeram-me repensar muitas de minhas atitudes. Esse aprendizado foi muito importante. Finalizo destacando a postura do professor Luiz que, com todo o seu saber, nos mostrou que podemos ser grandes e humildes.

Muito obrigada a  todos, colegas e professores!



sábado, 29 de outubro de 2011

O que faz você feliz?

O que faz você feliz?
(Arnaldo Antunes)

O que faz você feliz?
A lua, a praia, o mar
Uma rua, passear
Um doce, uma dança
Um beijo ou goiabada com queijo?
Afinal, o que faz você feliz?
Chocolate, paixão
Dormir cedo, acordar tarde
Arroz com feijão, matar a saudade
O aumento, a casa, o carro que você sempre quis
Ou são os sonhos que te fazem feliz?
Dormir na rede, matar a sede
Ler ou viver um romance
O que faz você feliz?
Um lápis, uma letra, uma conversa boa
Um cafuné, café com leite, rir a toa
Um pássaro, um parque, um chafariz
Ou será o choro que te faz feliz?
A pausa para pensar
Sentir o vento
Esquecer o tempo
O céu
O sol
Um som
A pessoa ou o lugar
Agora me diz o que faz você feliz?

O que faz você feliz?
aquela comida caseira,
arroz com feijão
brincar a tarde inteira
o molho do macarrão
ou é o cheiro da cebola fritando que faz você feliz?
o papo com a vizinha,
o bife, a batatinha
a goiabada com queijo
um doce ou um desejo
afinal o que faz você feliz?

O que faz você feliz?
ficar de bobeira
assaltar a geladeira
comer frango com a mão
tomar água na garrafa
passar azeite no pão
ou é namorar a noite inteira que faz você feliz?
rir e brindar a toa
um filme, uma conversa boa
fazer um dia normal virar uma noite especial
afinal, o que faz você feliz?

O que faz você feliz?
comer morango com a mão
por açúcar no abacate
brincar com melão, goiaba, romã, jabuticaba
ou é o gostinho de infância que faz você feliz?
cuspir sementes de melancia
falar besteira, ficar sem fazer nada
plantar bananeira, ou comer banana amassada?
afinal, o que faz você feliz? O que faz você feliz?
A lua, a praia, o mar
Uma rua, passear
Um doce, uma dança
Um beijo ou goiabada com queijo?
Afinal, o que faz você feliz?
Chocolate, paixão
Dormir cedo, acordar tarde
Arroz com feijão, matar a saudade
O aumento, a casa, o carro que você sempre quis
Ou são os sonhos que te fazem feliz?
Dormir na rede, matar a sede
Ler ou viver um romance
O que faz você feliz?
Um lápis, uma letra, uma conversa boa
Um cafuné, café com leite, rir a toa
Um pássaro, um parque, um chafariz
Ou será o choro que te faz feliz?
A pausa para pensar
Sentir o vento
Esquecer o tempo
O céu
O sol
Um som
A pessoa ou o lugar
Agora me diz o que faz você feliz?

O que faz você feliz?
aquela comida caseira,
arroz com feijão
brincar a tarde inteira
o molho do macarrão
ou é o cheiro da cebola fritando que faz você feliz?
o papo com a vizinha,
o bife, a batatinha
a goiabada com queijo
um doce ou um desejo
afinal o que faz você feliz?

O que faz você feliz?
ficar de bobeira
assaltar a geladeira
comer frango com a mão
tomar água na garrafa
passar azeite no pão
ou é namorar a noite inteira que faz você feliz?
rir e brindar a toa
um filme, uma conversa boa
fazer um dia normal virar uma noite especial
afinal, o que faz você feliz?

O que faz você feliz?
comer morango com a mão
por açúcar no abacate
brincar com melão, goiaba, romã, jabuticaba
ou é o gostinho de infância que faz você feliz?
cuspir sementes de melancia
falar besteira, ficar sem fazer nada
plantar bananeira, ou comer banana amassada?
afinal, o que faz você feliz?

Esperança

Versos extraídos da obra “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto


Belo porque é uma porta 
abrindo-se em mais saídas.  

Belo como a última onda 
que o fim do mar sempre adia.  

é tão belo como as ondas 
em sua adição infinita. 


Belo porque tem do novo 
a surpresa e a alegria.  

Belo como a coisa nova 
na prateleira até então vazia.  

Como qualquer coisa nova 
inaugurando o seu dia.  

Ou como o caderno novo 
quando a gente o principia. 
 
E belo porque o novo 
todo o velho contagia.